Por que eu sinto que preciso me explicar sempre?

O que observar os BLs e o feminismo despertou em mim.

Curadoria de 🪄Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit

“Para mim, assistir BL, deixando de lado o entretenimento, é assistir o tanto de energia masculina se permitir (os personagens) o sentir e ser quem quiser ser. Me parece diferente da energia feminina porque as mulheres, em geral, têm mais liberdade de expressar o afeto.”

Esse comentário que escrevi no X nasceu quase sem intenção. Foi uma resposta espontânea, sensível, que veio do corpo antes de vir da razão. E, ainda assim, ele me voltou a mente e vem me acompanhando há dias: por que tantas mulheres sentem que precisam explicar seus gostos, seus prazeres, seus interesses — mesmo quando eles não ferem ninguém e não exigem validação?

Essa pergunta atravessa camadas profundas da nossa formação psíquica. Não surge apenas da experiência individual, mas de uma longa aprendizagem social sobre o que pode ou não pode ser vivido sem justificativa. Desde cedo, muitas mulheres aprendem que o prazer precisa vir acompanhado de contexto, propósito, função. Gostar por gostar raramente é suficiente.

Na psicologia do desenvolvimento, isso aparece com clareza. O cérebro humano se organiza em diálogo constante com o ambiente. Antonio Damásio descreve que emoções, sentimentos e decisões emergem da interação entre corpo, cérebro e contexto social. Isso significa que não aprendemos apenas o que sentir, mas como regular aquilo que sentimos a partir das respostas que recebemos do mundo.

Ao longo da infância e adolescência, meninas costumam ser mais incentivadas a observar, ajustar, cuidar e antecipar reações alheias. Esse padrão se internaliza. Com o tempo, a explicação vira reflexo. Antes mesmo que alguém questione, o próprio sistema nervoso já se antecipa. A justificativa passa a funcionar como um regulador emocional aprendido.

Freud falava do superego como essa instância que carrega as normas e expectativas do grupo. Jung amplia essa visão ao falar de conteúdos coletivos inconscientes que moldam comportamentos individuais. Quando uma mulher sente desconforto por simplesmente gostar de algo, muitas vezes não está lidando com o presente, mas com um acúmulo de mensagens antigas sobre adequação, valor e pertencimento.

A neurociência social ajuda a compreender por que isso se mantém. Pesquisas mostram que mulheres, em média, apresentam maior engajamento de circuitos neurais ligados à empatia, monitoramento social e leitura emocional do ambiente. Isso não é destino biológico, mas o resultado de predisposições combinadas com reforços culturais constantes. O cérebro aprende onde é seguro relaxar e onde é melhor se explicar.

É nesse ponto que observar BLs tocou algo em mim. Ao acompanhar narrativas em que homens se permitem sentir, hesitar, se vincular e expressar afeto de forma aberta, algo se reorganiza internamente. Existe um impacto diferente porque, culturalmente, mulheres já tiveram mais permissão para expressar cuidado e emoção — mas nem sempre para usufruir do prazer sem camadas de culpa ou racionalização.

Do ponto de vista da neurociência do comportamento, experiências narrativas ativam sistemas de recompensa ligados à dopamina, à motivação e ao vínculo. Quando essas experiências não exigem que a espectadora se coloque como objeto de avaliação — corporal, moral ou social — o envolvimento afetivo acontece de forma mais fluida. O corpo responde com mais segurança, menos tensão.

Isso ajuda a entender por que tantas mulheres descrevem esse tipo de conteúdo como regulador, confortável, restaurador. Ele oferece uma paisagem emocional onde o afeto circula sem a necessidade constante de defesa interna. O prazer se torna uma experiência vivida, não um argumento.

Essa reflexão se conecta com algo que vi recentemente: uma psicóloga relatando seus hobbies aos trinta anos, quase como se precisasse afirmar publicamente que podia tê-los. A pergunta que ficou em mim foi silenciosa, mas forte: se podemos, por que ainda explicamos? O que no nosso sistema emocional aprendeu que o prazer precisa ser autorizado?

Jung diria que estamos atravessando uma reorganização dos arquétipos. O feminino começa a reivindicar o direito ao desfrute sem culpa. O masculino, por sua vez, passa a explorar territórios emocionais antes reprimidos. Quando essas imagens se encontram na cultura, no entretenimento e nas relações, surgem deslocamentos internos que nem sempre sabemos nomear de imediato.

Observar esses movimentos — em nós e fora de nós — amplia a consciência. A pergunta deixa de ser sobre o objeto do gosto e passa a ser sobre o mecanismo interno que pede explicação. Quando esse mecanismo se torna visível, abre-se espaço para escolhas mais alinhadas com quem somos hoje, e não apenas com o que aprendemos a ser.

Talvez esse seja um dos convites mais sutis desse tema: perceber quantas vezes explicamos antes de simplesmente sentir. E observar, com curiosidade e gentileza, o que acontece quando o prazer não precisa ser defendido para existir.


📚 Referências:

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Jung, C. G. (1959). The archetypes and the collective unconscious (2nd ed.). Princeton, NJ: Princeton University Press.

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