‘Por que o meu BL Ocidental é Melhor que o Seu Oriental…’ SERÁ?!

Num mundo no qual a RIVALIDADE se ESQUENTA com povs inconscientes

Escrito por 🪄Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit

Ironia do destino, só que não: a série produzida pela CRAVE e comprada pela HBO Max – Heated Rivalry – chegou trazendo povs sobre séries gays, BLs, qualidade narrativa e uma certa “hierarquia implícita” entre o que é ocidental e o que é oriental. Interessante observar que o número de séries, filmes, mangás, webtoons e fanfics produzidas nos últimos anos explodiu e se tornou até soft power de países. Quem nunca leu um mangá yaoi japonês, assistiu um BL ou GL tailandês, ou mergulhou em dramas coreanos, só para exemplificar?

Será mesmo que a produção ocidental é mais refinada que a oriental?! Ou fomos condicionados a achar isso?! Será mesmo que nossa opinião não tem um fundo preconceituoso enraizado em nossa história familiar, cultural, social e econômica?!

E estou assistindo Heated Rivalry. Não li o livro e estou gostando muito. No episódio 3, a narrativa expande para uma história paralela aos personagens dos episódios 1 e 2 – e eu ainda não decorei os nomes, e não vou pesquisar agora apenas para manter o fluxo do que quero compartilhar. 😆

Quem mora no Brasil – e tem mais de 30 anos – consumiu majoritariamente mídia ocidental: novelas brasileiras, mexicanas, produções de Hollywood, dramas europeus. Cresci assim, mas não fiquei presa a isso.

Com a expansão dos streamings após 2010, e principalmente durante a pandemia, o Oriente – que antes, pra mim, era o qual tinha o país meu primo mora (Japão) ou o cenário do filme A Praia (Tailândia) – virou o meu maior centro de descobertas.

E não ficou no entretenimento: descobri Reiki (Japão), Kuan Yin (China), meditação Vipassana (Budismo), Yoga (Índia). A conexão veio de mais lugares: de identificação, de pertencimento, de me sentir mais presente. Ao observar o Oriente, eu também experimentei o Oriente – e isso trouxe consciência para mim. Experiência cria sabedoria. Abre novos pontos de vista. Transforma por dentro e por fora.

É nesse ponto que eu quero contribuir para a discussão de “meu BL é melhor que o seu”. Será mesmo?!

A não ser que sejam os próprios artistas defendendo orgulhosamente seu trabalho – o que é bacana e legítimo – muitas opiniões vêm de um lugar condicionado. Automático. Sem muita participação do nosso córtex pré-frontal. Apenas repetindo um “interessante ponto de vista” que herdamos da família, da cultura, da mídia.

E sim: nossos achismos podem pertencer a outras pessoas além de nós.

O que está por trás dessas reações?

Já que a ciência nos dividiu pra nos entender, podemos entender que somos feitos de camadas: DNA, Ambiente, Alma.

Na questão do DNA, temos predisposições emocionais, sensibilidade, temperamento. A ciência mostra que até preferências estéticas carregam algum componente hereditário indireto, por exemplo.

Já reparou que o ambiente em que estamos nos influencia?! Como quando chegamos num lugar e nos sentimos bem ou mal, dependendo da vibe…?! Pois as coisas e pessoas podem e nos influenciam como família, país, classe social, mídia, religião, educação, referências. Essa camada molda o que chamamos de “bom gosto” muito mais do que nossa consciência admite.

É aqui que entram reações como estas (traduzidas dos tweets que circularam):

“Engraçado que por anos as pessoas disseram que BL asiático era fetichizado, mas agora estão elogiando BL ocidental pela ‘química sexual’.” — @

“BLs asiáticos glorificam heteronormatividade. Heated Rivalry não faz isso.” — @

“Estou cansade de ver BL asiático tratado como algo ‘menor’, como se não fosse arte de verdade, enquanto filmes queer ocidentais são glorificados como se fossem o padrão de ouro. As pessoas ignoram problemas gravíssimos em filmes ocidentais porque são ‘bonitos esteticamente’. A hipocrisia é gritante.” — @

“Desculpa, mas cinema queer ocidental está anos-luz à frente. Ele conta vida queer, não fantasia queer.” — @

E o ponto levantado pelo pesquisador Dr. Thomas Baudinette:

“Toda vez que uma nova série ocidental LGBT viraliza, surge um discurso xenófobo atacando BL asiático, ignorando que muitas dessas obras ocidentais foram inspiradas em BLs asiáticos.”

Ele também comenta que muita gente diz “é só o meu gosto” — sem perceber que gosto é moldado por estruturas sociais, como dizia Pierre Bourdieu. Ou seja: a pessoa acha que está opinando livremente, mas está repetindo algo que aprendeu sem perceber.

E uma última camada, a Alma, pode revelar que quando você se permite experimentar o mundo por conta própria — com corpo, emoções, espírito, presença, os povs podem ser mais autênticos. Lembre que esse é meu pov, não quer dizer que é certo ou errado.

Quando eu experimentei o Oriente na prática (Reiki, Vipassana, Yoga, espiritualidade, artes), minha percepção mudou. E quando minha alma se moveu, o resto se reorganizou.

E outra: sabia que a autora de Heated Rivalry já citou publicamente que se inspirou em obras orientais (especialmente BL japonês) para criar a história?! A obra ocidental comparada como “superior” só existe porque antes houve BL oriental. Isso desmonta boa parte da rivalidade que vemos online — e reforça a sua pergunta inicial: Será mesmo que o seu é melhor que o meu… ou será que você só acha isso porque foi condicionado a achar?

Entre fantasia, realidade e condicionamento

O debate “ocidental X oriental” muitas vezes ignora o essencial, de que cada cultura narra o amor a partir de suas próprias feridas, valores e visão de mundo.

No Ocidente, narrativas queer costumam carregar luta política, trauma histórico, necessidade de validação social, estética cinematográfica eurocêntrica, ênfase no realismo psicológico…

No Oriente, especialmente em BLs tailandeses, japoneses e coreanos, muitas vezes vemos metáforas emocionais, mundos simbólicos, fantasia como espaço seguro, delicadeza nas camadas afetivas, espiritualidade implícita ou explícita, histórias de florescimento interno…

Nenhum dos dois modelos está “certo” ou “errado”. São apenas culturas diferentes narrando o que sabem e o que podem expressar. Mas quando o Ocidente se coloca automaticamente acima, a pergunta volta: isso é opinião… ou é condicionamento?

Quando eu digo: “As experiências trazem conhecimento e sabedoria, abertura a novos povs e transformações internas e externas.” – pode ser uma chave para a questão… Pois foi quando eu EXPERIMENTEI (mesmo de longe e imagina quando eu estiver lá 🥹) o Oriente, a espiritualidade, a energia, a arte, o corpo, a alma, que algo dentro de mim se abriu.

E é disso que se trata este texto:
não sobre quem é melhor, mas sobre quem você se torna quando percebe por que achava que um era melhor.

É sobre consciência. É sobre perceber o que é herdado, o que é seu, e o que virou seu quando você se permitiu viver o mundo com tudo que você é – corpo, mente, emoção e força divina.

No meu – e no seu – interessante ponto de vista.

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