Uma notícia, minhas impressões e possíveis hipóteses de uma cientista apaixonada
Escrito por 🪄Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit
e engraçado que por mais consciente que se seja de que tudo é atuado por um lado e vida que segue por outro, vem um sentimento de se sentir traído. quem inventou o relacionamento parassocial, fanservice fez o trabalho direitinho. (e ele não seria meu ship preferido) só pra contextualizar…
Esse foi exatamente um comentário meu sobre uma notícia de suposto romance do Aou dos #AouBoom que apareceu no X essa semana… E vem cheio de camadas!
Primeiro que me sentir traída – pouco ou muito – por um artista vivendo sua vida e nem é meu fav parece muito estranho quando a gente usa a razão. Segundo, que ao mesmo tempo tive consciência de que existe o fanservice e a vida real – e que são coisas muito diferentes. Ainda minha observação irônica de quem criou o desejo unilateral dos consumidores pelos artistas – desde a época em que a TV surgiu mais de 50, 60 anos atrás…
Destrinchando um pouco mais sobre o assunto, e vamos aprofundar neles, no meu interessante ponto de vista, precisamos conhecer e entender a correlação entre relações parassociais, teoria do apego e como funciona o fanservice.
Será que se eu, você fôssemos alguém público e tivéssemos fãs apaixonados, gostaríamos que as pessoas passassem por emoções impulsivas tão fortes a ponto de gerar dor e sofrimento?! Ou que cada ser humano, tendo alguns conhecimentos, e inteligência emocional, pudesse sentir e observar como escrevi lá no começo do texto: sente, se percebe, traz consciência do que está acontecendo e deixa passar. Se der, fica até feliz por saber que seu fav é feliz no trabalho e na vida pessoal…?!
A ciência pode nos ajudar a entender por que essas emoções são tão intensas. Desde os estudos de Donald Horton e Richard Wohl, em 1956, o termo “relação parassocial” é usado para descrever vínculos unilaterais entre público e figuras midiáticas. Na época, os pesquisadores já percebiam que os espectadores sentiam proximidade emocional com apresentadores de televisão como se fossem amigos íntimos. Hoje, com as redes sociais, essa sensação se tornou diária e onipresente. Seguimos artistas, vemos suas rotinas, seus cafés, suas expressões espontâneas — e o cérebro entende isso como convivência.
Pesquisas em neurociência social mostram que o cérebro não diferencia completamente um rosto visto pela tela de um rosto visto pessoalmente. Estudos com neuroimagem indicam que regiões associadas à recompensa e à empatia — como o estriado ventral e o córtex pré-frontal medial — são ativadas quando interagimos com imagens de pessoas que admiramos. Solié e colaboradores (2022), por exemplo, demonstraram que neurônios dopaminérgicos do mesencéfalo são ativados em situações de interação social, mesmo quando mediadas por estímulos simbólicos. Isso significa que, biologicamente, um sorriso gravado pode acionar as mesmas vias cerebrais que um sorriso real.
E aqui vale uma clareza necessária — e honesta: o afeto que o fã sente é real, sim. Real no corpo, real na química cerebral, real na subjetividade. Mas essa realidade é interna, não compartilhada. O vínculo existe dentro da pessoa que sente, não entre duas pessoas que se relacionam. Relações parassociais são isso: vínculos afetivos verdadeiros, porém unilaterais. Não são invenções, não são ilusões; são respostas emocionais autênticas sem reciprocidade. O coração sente — mas só um lado sente. E compreender essa diferença é essencial para navegar esses afetos sem se perder neles.
Agora, quando falamos de apego, entramos em outro campo fascinante. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby e expandida por Mary Ainsworth, explica como nossas experiências afetivas precoces moldam a forma como nos vinculamos emocionalmente. Pessoas com apego ansioso tendem a buscar proximidade e validação constantes; já as de apego evitativo mantêm distância emocional como forma de autoproteção. Essa base se reflete também nas relações parassociais. Pesquisas recentes (Paravati, Gabriel e Green, 2022) mostraram que fãs com apego ansioso formam laços parassociais mais intensos e são mais propensos a sentir ciúmes ou tristeza quando seus ídolos mudam de comportamento ou entram em relacionamentos.
Ou seja: não é fraqueza, é configuração emocional. O cérebro, mediado pelo sistema dopaminérgico, responde a esses estímulos como se fosse vínculo real. A dopamina, associada à motivação e ao prazer, reforça a busca por novidade — e é aí que entram as plataformas digitais, que oferecem “recompensas” contínuas em forma de novos conteúdos, lives, interações e fanservices cuidadosamente planejados. A cada postagem, uma descarga sutil de dopamina e oxitocina nos mantém conectados, como se estivéssemos participando de uma relação de reciprocidade.
Mas há um ponto delicado: reciprocidade verdadeira exige troca. E nas relações parassociais, essa troca é ilusória. O que sentimos como intimidade é, na prática, uma simulação emocional alimentada por algoritmos. Hartmann e Goldhoorn (2011) chamaram esse fenômeno de “interação quase-recíproca”, na qual o público acredita estar sendo visto, quando na realidade está apenas interagindo com uma interface. Isso explica por que notícias sobre a vida pessoal de artistas podem gerar reações emocionais tão intensas: o cérebro responde como se fosse uma ruptura de vínculo. Em outras palavras, o cérebro vai perdendo o filtro natural que ajuda a distinguir o que é presença real do que é apenas ruído emocional.
O fanservice agrava ou ameniza essa sensação dependendo de como é conduzido. Quando bem utilizado, cria empatia, senso de pertencimento e comunidade; quando usado de forma manipulativa, reforça a dependência emocional dos fãs e a hiperidentificação com pares de personagens ou atores. E aqui entram as minhas hipóteses: a forma como cada fandom lida com essas dinâmicas pode ser observada como um microcosmo de cultura emocional coletiva. Existem fandoms que se apoiam, criam espaços de expressão artística, arrecadam fundos para causas, e transformam o afeto em algo criativo e socialmente útil. E há os que adoecem juntos, reféns da idealização.
Então, o que podemos fazer com tudo isso? A resposta não é se afastar da arte, nem se culpar por sentir. É cultivar consciência. Saber que o amor pela tela existe, mas não precisa ser fonte de sofrimento. Que podemos admirar sem idealizar. Que é possível sentir afeto por alguém que inspira, sem transformar isso numa simbiose emocional. As estratégias que alguns pesquisadores propõem são simples e práticas: limitar o tempo de exposição às redes, equilibrar conteúdos digitais com atividades analógicas (escrever, desenhar, caminhar, ouvir música com presença) e, sobretudo, fortalecer vínculos reais — amigos, família, comunidade.
A neurociência explica, mas é a consciência que transforma. Porque entender que o cérebro reage ao virtual como ao real não é desculpa para a dependência; é convite à responsabilidade afetiva. Se o algoritmo captura nossos desejos, cabe a nós recuperar o livre-arbítrio emocional — e lembrar que toda projeção começa de dentro.
Relações parassociais não são erro da humanidade, são espelho dela. Elas revelam a potência do nosso desejo de conexão, mas também o quanto ainda confundimos atenção com amor. E talvez o verdadeiro amadurecimento digital seja esse: seguir amando o que nos inspira, mas sem esquecer que a tela é apenas o meio — não o vínculo.
Referências
Hartmann, T., & Goldhoorn, C. (2011). Horton and Wohl revisited: exploring viewers’ experience of parasocial interaction. Journal of Communication, 61(6), 1104–1121.
Horton, D., & Wohl, R. R. (1956). Mass communication and para-social interaction. Psychiatry, 19(3), 215–230.
Paravati, E., Gabriel, S., & Green, J. D. (2022). Social comparison, parasocial relationships, and attachment style: How and when do celebrities improve self-liking? Journal of Social Psychology, 162(1), 1–17.
Skuse, D., & Gallagher, L. (2009). Dopaminergic–neuropeptide interactions in the social brain. Trends in Cognitive Sciences, 13(1), 27–35.
Solié, C., et al. (2022). VTA dopamine neuron activity encodes social interaction and promotes reinforcement learning through social prediction error. Nature Neuroscience, 25, 86–97.
Wang, Z., & Aragona, B. J. (2004). Neurochemical regulation of pair bonding in male prairie voles. Physiology & Behavior, 83(2), 319–328.







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