O peso simbólico da série Shine e da Universidade Thammasat
Curadoria: 🪄Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit
Algumas histórias brilham tanto que atravessam décadas, mesmo quando forças poderosas tentam apagá-las. Shine, uma produção tailandesa da Be On Cloud – e apoio do THACCA (Thailand Creative Culture Agency) – ambientada em 1969, faz isso com delicadeza e coragem. Além de uma narrativa romântica ou de amadurecimento, a série funciona como um espelho para um período marcado por tensão política, sonhos de liberdade e a brutalidade de regimes que se sustentam pelo medo.
Um dos núcleos centrais da trama se passa dentro de uma universidade, onde jovens estudantes se organizam, questionam e ousam imaginar um país mais justo. As cenas foram gravadas no campus Tha Phra Chan, da Universidade Thammasat, instituição que ocupa um lugar único na história da Tailândia. Fundada em 1934 por Pridi Banomyong, um dos líderes da Revolução de 1932 que encerrou a monarquia absoluta, a Thammasat nasceu com um espírito democrático e de debate político.
Sua localização não poderia ser mais simbólica: às margens do rio Chao Phraya, cercada pelo Monumento da Democracia, o Grand Palace, templos históricos e marcos da identidade nacional. Mas, acima de tudo, a Thammasat foi — e continua sendo — um espaço onde a juventude ousou se levantar contra a opressão. Nos anos 1960 e 1970, ela foi o coração do movimento estudantil tailandês, abrigando debates, planejamentos e mobilizações que mudariam para sempre a história do país.
É nesse contexto que Shine encontra sua inspiração. Nos créditos, os criadores deixam claro que a série é “livremente baseada” na efervescência política daquela época. O personagem Trin, por exemplo, foi inspirado no professor Puey Ungphakorn, economista e então reitor da universidade, conhecido por seu apoio aos estudantes e sua postura firme em defesa da democracia. Ao contar histórias de personagens ficcionais, Shine ilumina memórias reais — algumas belas, outras profundamente dolorosas.
A Revolta de 14 de Outubro de 1973 – Quando a coragem derrubou a ditadura

Nos anos que antecederam 1973, a Tailândia estava sob o controle de um regime militar conhecido como o Triunvirato dos Três Tiranos, formado por Thanom Kittikachorn, Prapas Charusathien e Narong Kittikachorn. Era um governo marcado por corrupção, censura, repressão violenta e alinhamento com os Estados Unidos em plena Guerra Fria. Enquanto a elite acumulava riquezas, estudantes, trabalhadores e camponeses viviam sob opressão.
Entre os dias 6 e 9 de outubro de 1973, treze jovens ativistas — a maioria estudantes — foram presos por distribuírem panfletos que exigiam uma nova constituição. O regime os acusou de conspiração comunista, uma acusação grave e perigosa no contexto da Guerra Fria. Em resposta, os estudantes começaram a se organizar, transformando o campus da Thammasat em um centro de resistência. Barracas, palcos e assembleias surgiram como símbolos de um desejo coletivo por liberdade.
No dia 13 de outubro, a mobilização alcançou uma dimensão inédita. Cerca de 400 mil pessoas — estudantes, trabalhadores e cidadãos comuns — marcharam pacificamente da universidade até o Monumento da Democracia. Era a maior manifestação já registrada na história do país. Sob intensa pressão, o governo libertou os treze ativistas presos, esperando acalmar os ânimos. Mas o gesto teve o efeito contrário: os manifestantes agora exigiam a renúncia total dos ditadores.

Na manhã do dia 14 de outubro, o regime respondeu com violência brutal. Tropas armadas com rifles, metralhadoras, tanques e até helicópteros atacaram a multidão. O que começou como um protesto pacífico transformou-se em uma guerrilha urbana, com barricadas improvisadas e gritos ecoando pelas ruas de Bangkok. Os números oficiais falam em 77 mortos e 857 feridos, mas testemunhas acreditam que o número real foi muito maior. Muitas vítimas jamais foram registradas oficialmente, em parte devido à manipulação política dos dados.
Foi então que uma figura inesperada interveio: o Rei Bhumibol Adulyadej (Rama IX). Ele ordenou que os portões do Palácio Real fossem abertos para abrigar e tratar os feridos, um gesto que enfraqueceu ainda mais a legitimidade do governo militar. Com o apoio real retirado e o exército dividido, Thanom e Prapas renunciaram e partiram para o exílio. Pela primeira vez na história da Tailândia, um regime militar caiu não por outro golpe, mas pela força do povo nas ruas.
Nos meses seguintes, um governo interino foi formado, e uma nova constituição foi promulgada. Pela primeira vez em décadas, a Tailândia viveu um breve período de liberdade política e expressão, no qual partidos, sindicatos e movimentos sociais floresceram. Mas essa primavera democrática também despertou a reação das elites conservadoras e grupos paramilitares, que passaram a retratar os estudantes como inimigos da Nação, Religião e Monarquia. Esse ódio, alimentado por campanhas midiáticas e pela paranoia anticomunista, prepararia o terreno para a tragédia de 1976.
6 de Outubro de 1976 – Quando o brilho foi atacado
Três anos após a revolta, o retorno de Thanom Kittikachorn à Tailândia, agora sob o pretexto de se tornar monge, reacendeu os temores da juventude. Estudantes da Thammasat começaram a protestar, exigindo justiça e proteção contra a violência que vinha crescendo desde 1974, quando líderes camponeses e ativistas passaram a ser perseguidos e mortos.
No dia 4 de outubro de 1976, o Clube de Artes da Universidade Thammasat apresentou uma peça satírica que denunciava essas mortes e criticava a ordenação de Thanom. Uma foto da encenação foi publicada por um jornal de direita, que falsamente alegou que os estudantes haviam encenado o enforcamento do príncipe herdeiro, um crime de lesa-majestade na cultura tailandesa. Essa mentira inflamou as rádios militares e mobilizou grupos ultranacionalistas.
Na madrugada de 5 para 6 de outubro, as forças de direita cercaram a universidade. Na manhã seguinte, iniciou-se o ataque que virou um massacre. Estudantes foram baleados, enforcados, queimados vivos em pneus e brutalmente violentados — alguns mesmo após a morte. As imagens desse dia continuam sendo perturbadoras: corpos profanados, crianças assistindo e até sorrindo diante da violência. O ódio havia sido fabricado e manipulado por aqueles no poder.

O número oficial de mortos foi de 46 pessoas, mas estimativas não oficiais apontam para mais de 100. Mais de 3 mil pessoas foram presas.
No mesmo dia, um golpe militar foi anunciado, instaurando o Conselho Nacional de Reforma Administrativa, que alegava ter agido para proteger a monarquia e impedir uma “conspiração comunista”. Nenhum dos responsáveis — militares, políticos ou paramilitares — foi julgado ou punido.
Para muitos, a ferida permanece aberta: “Inesquecível” porque não pode ser apagada da memória, e “irrecordável” porque é doloroso demais para ser lembrado, como define o professor Thongchai Winichakul, sobrevivente e líder estudantil da época.
Repressão política e repressão emocional – Reflexões para o presente
Quando olhamos para esses eventos à distância, é fácil pensar que eles pertencem apenas aos livros de história. Mas a repressão política tem paralelos profundos com os mecanismos internos de repressão emocional que vivemos como indivíduos.
Um regime autoritário tenta controlar narrativas, silenciar vozes dissidentes e sufocar sonhos — assim como, em nossa vida pessoal, traumas e medos tentam silenciar nossos desejos mais autênticos.
Os estudantes tailandeses que marcharam em 1973 e resistiram em 1976 representam, simbolicamente, a parte corajosa dentro de cada um de nós que ousa se levantar, mesmo quando a opressão parece invencível.

O massacre foi uma tentativa de apagar memórias coletivas. Da mesma forma, em nossos processos internos, muitas vezes tentamos esquecer dores antigas, escondendo-as em “selvas emocionais”. Mas o que é reprimido tende a retornar — seja como sintoma, seja como busca por liberdade.
Reconhecer essas histórias é um ato de cura coletiva e individual. Ao falar sobre elas, trazemos à luz não apenas o passado da Tailândia, mas também nossos próprios padrões de silêncio e medo – além de correlações ao que acontece em nosso próprio país. O brilho que regimes tentaram apagar é, no fundo, a centelha humana de consciência e dignidade.
O brilho que retorna – Memória, arte e consciência

Décadas depois, Shine resgata essa memória através da arte. Embora use personagens ficcionais e uma narrativa simbólica, a série reacende conversas sobre democracia, coragem e dor coletiva. Ela lembra ao público jovem que a liberdade que temos hoje — seja em qualquer país — foi conquistada por pessoas que se arriscaram, sonharam e, muitas vezes, pagaram com a própria vida.
Esse brilho que retorna vai além das fronteiras impostas pelos países e suas políticas. Ele se manifesta sempre que escolhemos lembrar, dialogar e criar. A arte tem um papel fundamental nisso: ela transforma traumas em histórias que podem ser vistas, sentidas e compreendidas, evitando que sejam esquecidas ou distorcidas.
Lembrando que a arte tem um quê libertador e que não tem obrigação de nos ensinar algo por si só. Ela pode nos conectar emocionalmente a histórias humanas, mesmo que fantásticas ou baseadas livremente na realidade, e, assim, nos fazer refletir sobre nossa própria existência e papel na sociedade.
Shine veio como um convite à autoconsciência coletiva. Somos chamados a meditar sobre como regimes autoritários se alimentam do medo e da divisão, e como cada um de nós pode proteger a chama da liberdade em nossos contextos — seja político, social ou emocional.
Dedicamos esse texto*, com profundo respeito, à memória dos estudantes e cidadãos tailandeses que perderam a vida lutando por democracia e justiça social. E estendemos a todo ser humano que fez de sua missão de vida a libertação das cadeia e algemas impostas pelos próprios homens e mulheres de pouca fé!
Sawadii Kha, em reverência aos irmãos e irmãs que transformaram dor em história e resistência. 🌿
*Este texto foi criado a partir de intenções e reflexões humanas, em parceria com inteligência artificial.
Créditos: Curadoria de imagens e criação das threads por Theus.








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