I’m the Most Beautiful Count, Polêmico! e o Poder/Direito de Ser Você Mesmo
Escrito por 🪄Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit
O palco está iluminado, o público em suspense.
Na tela, uma frase ecoa: “We all have the right to be ourselves.” — “Todos temos o direito de sermos nós mesmos.”

No entanto, a tensão não está apenas na fala do personagem, mas na reação da plateia que, na cena, se mostra contra ele. Até mesmo a apresentadora, que deveria ser neutra, parece paralisada. Em I’m the Most Beautiful Count, série tailandesa da Change2561, ser uma pessoa transgênero não é apenas um tabu: é proibido por lei. O direito à identidade, tão básico, torna-se um ato de rebeldia, coragem e, principalmente, sobrevivência.
Essa cena me tocou profundamente porque expõe um dilema que não está restrito à ficção. No Brasil, por exemplo, temos leis que protegem os direitos da comunidade LGBTQIAPN+. Pessoas podem — em teoria — amar livremente, e o racismo é crime passível de prisão. Mas, na prática, vivemos uma realidade brutal: o Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, segundo dados recentes da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Assim como na série, existe uma distância imensa entre o que a lei garante e o que a sociedade efetivamente permite.
Em I’m the Most Beautiful Count, acompanhamos Prince, o protagonista que, nos dias atuais, deseja ser livre para ser quem realmente é. A série se torna ainda mais complexa quando Prince assume o corpo de Worradej ao viajar para o passado — justamente na época em que a lei proibindo relacionamentos homoafetivos foi sancionada na Tailândia. Nesse contexto, vemos a luta de personagens que querem impedir que essa lei avance, para que possam viver e amar sem medo.
Há também uma camada de romance que torna tudo mais delicado: Worradej era apaixonado por Banjong antes da troca, mas, após Prince ocupar seu corpo, surge um envolvimento inesperado com Kosol, que ama Woradet. Essa trama traz à tona não apenas questões de identidade de gênero, mas também os desafios emocionais que surgem quando as estruturas sociais tentam definir quem devemos amar — e como devemos existir.

O personagem Prince/Worradej me emocionou profundamente. Ele representa milhões de pessoas que enfrentam diariamente a dor de viver em uma sociedade que tenta apagá-las. Ser quem se é, quando isso significa desafiar tradições, instituições religiosas, sistemas políticos e econômicos, exige uma coragem que poucos podem imaginar.
Hoje, a Tailândia é conhecida por suas produções BL (Boys Love) e GL (Girls Love), que fazem parte de um movimento cultural estratégico — o soft power. Em todo lugar, é possível encontrar produtos e propagandas que exploram os “ships”, casais fictícios que movem multidões de fãs. No entanto, esse universo romantizado contrasta com a realidade: apesar de a Tailândia ter aprovado em junho de 2024 uma lei que permite casamentos igualitários, ainda há muito preconceito e estruturas tradicionais profundamente enraizadas.
No Brasil vivemos algo semelhante: temos avanços legais, mas a violência estrutural persiste. O que a série mostra, portanto, não é uma distopia distante, mas um espelho que nos faz refletir sobre como ainda precisamos lutar, em todos os lugares do mundo, pelo direito básico de existir sem medo.
Enquanto a série traz esses dilemas através da linguagem visual, a literatura nos convida a mergulhar mais fundo nas emoções e nos conflitos internos dos personagens. Nos livros Polêmico! (partes 1 e 2), publicados pela Editora Euphoria, vemos a jornada de Junwoo, um jovem que precisa desconstruir crenças rígidas impostas por uma criação religiosa e autoritária. Ao mudar de cidade e entrar em uma nova escola, ele conhece uma turma diversa e acolhedora — além de um professor que se torna uma figura de apoio.
O ponto de virada acontece quando Junwoo começa a se aproximar de Takeshi, um amigo especial que o faz questionar suas crenças mais profundas. O que antes parecia claro — quem ele deveria amar, como deveria se comportar — se desfaz diante da força de seus sentimentos. O conflito externo, representado pela figura do pai extremista e hipócrita, ecoa o conflito interno de Junwoo.


Essa narrativa não fala apenas sobre orientação sexual ou identidade de gênero, mas sobre algo universal: o momento em que somos chamados a nos escolher acima das expectativas sociais. É um processo doloroso, que exige desaprender, reconstruir e, acima de tudo, ter coragem de ser.
Contar histórias sempre foi uma forma de resistência. Desde os tempos em que nos reuníamos ao redor de fogueiras para compartilhar narrativas, passando pelas pinturas nas cavernas e chegando aos livros, séries e filmes de hoje, as histórias moldam nossa visão de mundo.
Ler Polêmico ou assistir a I’m the Most Beautiful Count não é apenas entretenimento — é um convite à reflexão. Cada detalhe desperta emoções que se transformam em significados únicos dentro de nós. É por isso que, ao longo da história, muitos livros foram censurados ou queimados: porque eles carregam o poder de libertar mentes, de questionar o status quo e de abrir espaço para novos modos de pensar e sentir.
Para mim, liberdade é a energia que me move.
Mas ser livre não significa ausência de limites: significa agir com consciência, entendendo que nossas escolhas têm consequências que vão além de nós mesmos.
As maiores barreiras para essa liberdade, muitas vezes, estão dentro de nós: medos, traumas e memórias de momentos em que fomos punidos por nos expressar. Do lado de fora, enfrentamos forças poderosas — a patrulha da internet, sistemas patriarcais, instituições religiosas e políticas que se alimentam da dominação e do controle.

É nesse ponto que ciência e espiritualidade podem se unir. A ciência nos oferece conhecimento e estrutura, enquanto a espiritualidade nos conecta ao intangível, ao nosso mundo interno. Quando essas duas dimensões se encontram, criam um caminho potente para resgatar a autenticidade que existe em cada ser humano.
O desejo de ir além do entretenimento, que surgiu de conversar com minha amiga Hellen sobre doramas, rendeu o podcast DoraCast e continua me movendo nas colunas para o +Thai Orbit. É uma oportunidade de se divertir com consciência. Claro, não toda hora, mas quando nos percebermos assim! Que seja leve e natural ao longo do tempo…
E se, em vez de apenas maratonar episódios, usássemos esse momento para nos observar? Para rir, chorar, refletir e, quem sabe, transformar algo dentro de nós?
Liberdade não é um presente dado por governos ou instituições. É uma conquista coletiva e diária.
Ser livre é um direito seu — e também uma responsabilidade.
Que possamos, juntos, criar um mundo onde ninguém precise pedir permissão para existir.
Onde séries, livros e conversas se tornem sementes de transformação.
E eu te deixo com uma pergunta:
Como pode ser mais fácil conquistarmos a liberdade de sermos nós mesmos, juntos?








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