A metafísica da vida, Keng Harit e minha fascinação por comportamento e simbolismos
Escrito por 🪄Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit
Esta coluna me lembra um confessionário pois esse verbo – confessar – já utilizei umas duas vezes como destaque no post da +TO sobre o artigo quinzenal #CulturaÉComportamento que escrevo… Mas não tem como compartilhar assuntos que me interessam sem meu pov pessoal ou na terceira pessoa – a vida não é um artigo científico – e sim composta de camadas multidimensionais, dependendo da crença de cada um!
Khemjira me faz lembrar da pluralidade brasileira de crenças, um povo que nasceu da mistura de índios, europeus e africanos. Dessa junção, não só as cores se misturaram, mas também as crenças e a originalidade criativa advinda disso tudo. Lembrei de um corte do programa Roda Viva no qual a escritora Chimananda Ngozi Adichie é questionada sobre o papel da religião pra ela, e o que pode chocar pessoas que desconhecem o assunto – assim como eu com essa informação – de que a África foi dominada pelo cristianismo pentecostal. O que podemos fazer um paralelo ao catolicismo no Brasil – com a catequização dos índios e escravos – e não cultos de graças ao Sol ou a Lua, mais xamânico, caso fôssemos um país de conexão espiritual nativa.
As colonizações, além de serem uma forma de exploração por países e povos que saíam para “conquistar” outras partes do mundo, foram também formas de expandir as religiões cristãs. E dessa mistura, de tradições africanas que vieram com os escravos aqui no país, mais o cristianismo, que originaram o Candomblé, por exemplo. Na junção de crenças, rituais, um desejo de libertação de domínio e exploração, que surgem muito daquilo que conhecemos como conexão espiritual mais diferentes, místicas, alternativas.
Sobre a Tailândia, me recordo de uma fala de uma senhora que segue os preceitos budistas e que mora no país, praticante de meditação Vipassana – que foi objeto de pesquisa da minha tese de doutorado – comentar que os rituais não são tão puros, digamos assim. Os tailandeses compartilham conosco essa arte brasileira do sincretismo: misturam tradições muito antigas que acreditam que tudo tem espírito – as árvores, os rios, os animais (animismo) – com os ensinamentos budistas. É como se fosse um caldeirão metafísico onde espíritos da natureza convivem com as lições de Buda. É exatamente essa mistura simples e complexa que vejo representada no xamã LINDO de Keng Harit 🤩 em Khemjira – um personagem que tem toda essa sabedoria ancestral mas não perde o lado humano e atual, transitando entre esses mundos espirituais com naturalidade.

Essa reflexão me leva diretamente ao meu fascínio pelo tarô – não como ferramenta de adivinhação, mas como sistema de símbolos que dialoga com nosso inconsciente. Assim como os xamãs tailandeses (os “phu phan”) e os orixás do Candomblé servem como mediadores entre mundos visíveis e invisíveis, as cartas funcionam como pontes para nossa intuição. O tarô, tal qual essas tradições milenares, oferece um vocabulário simbólico para questões que a razão pura nem sempre consegue decodificar.
O que me entusiasma é como tanto no xamanismo tailandês quanto no Candomblé brasileiro, encontramos essa mesma necessidade humana de criar narrativas e rituais que deem sentido às nossas experiências mais profundas. Os xamãs tailandeses combinam elementos animistas (tudo tem espírito) com influências budistas e hinduístas, criando uma abordagem holística que abrange corpo, mente e espírito. Paralelamente, os orixás do Candomblé – essas divindades que incorporam forças da natureza – oferecem modelos que servem para compreender aspectos humanos como transformação pessoal, cura emocional e crescimento espiritual.

Aqui chegamos a um ponto interessante – e que minha intuição gritou: as doenças psicossomáticas. Sabe quando você não lida com as emoções e “do nada” você fica com uma dor de garganta, dores de cabeça, até burn out ou um câncer… Pois isso acontece quando o corpo (soma) precisa dar vazão ao que NÃO foi trabalhado na mente, na psique, na alma. Quantas vezes nosso corpo manifesta aquilo que nossa mente não consegue processar?
Tanto nas práticas xamânicas tailandesas quanto nos rituais de Candomblé, há um reconhecimento profundo de que cura vai muito além do tratamento dos sintomas do corpo. Os xamãs tailandeses trabalham com a ideia de restaurar equilíbrio, combinando massagens, ervas e rituais. No Candomblé, invoca-se Oxalá para purificação e Iemanjá para cura emocional – reconhecendo que diferentes aspectos do ser humano necessitam de abordagens específicas.
Isso não significa abandonar a medicina convencional, mas sim reconhecer que algumas condições – especialmente aquelas relacionadas ao estresse, ansiedade, e traumas – podem se beneficiar de uma abordagem mais ampla, integrativa. Conheço pessoas que, mesmo com diagnósticos precisos e tratamentos médicos adequados, encontraram alívio significativo quando incluíram práticas espirituais em suas jornadas de cura – Eu inclusive.

O grande desafio é encontrar nosso ponto de equilíbrio pessoal. Um tanto intuição, um tanto razão, outro tanto nossas próprias experiências. Os sistemas de crenças – sejam xamânicos, religiosos, ou mesmo seculares como a psicologia – podem fazer muito sentido e oferecer suporte real. Porém, se tornam limitantes quando nos fechamos exclusivamente a uma única abordagem, ignorando outras possibilidades de crescimento e cura.
Vejo isso claramente na minha própria jornada. A meditação Vipassana me ensinou sobre observação sem julgamento. O tarô me oferece uma linguagem simbólica para questões complexas. A terapia tradicional e a neurociência do comportamento me dão ferramentas práticas. Cada uma dessas ferramentas contribui para um mosaico mais completo de autoconhecimento.

Tanto os xamãs tailandeses quanto os praticantes de Candomblé entenderam algo fundamental: não existem respostas únicas para as complexidades humanas. Assim como a cultura brasileira se enriqueceu com a mistura de tradições indígenas, africanas e europeias, nossa jornada pessoal pode se beneficiar dessa abordagem sincrética.
Quando assisto Keng Harit interpretando um xamã em Khemjira, vejo refletida essa mesma sabedoria ancestral que reconhece múltiplas dimensões da existência (além de admirar sua beleza estonteante! 🫠). O personagem não é apenas um curandeiro; pode ser um mediador que compreende que a cura verdadeira acontece quando conseguimos integrar diferentes aspectos de nós mesmos.
A espiritualidade, nesse contexto, não é escapismo da realidade, mas uma ferramenta adicional para navegar suas complexidades. Devemos manter uma vivência aberta para encontrar respostas onde elas fazem sentido e realmente ajudam, seja na consulta médica, na sessão de terapia, na leitura de cartas, ou no silêncio da meditação.
No final, talvez a maior sabedoria seja reconhecer que somos seres multidimensionais vivendo experiências de diferentes dimensões: corpo, mente, emoções e espírito. E como tal, merecemos abordagens igualmente ricas e diversas para nossa jornada de crescimento e cura.
Momento jabá: Como terapeuta integrativa, minha missão é a reconexão do ser com ele mesmo, integração entre as nossas diferentes dimensões. Se sente que precisa de uma ajuda e me vê como uma pessoa que possa te auxiliar, entre em contato pelo IG @integraaalma 🪄🫶🏻
📚 Referências para os estudiosos
XAMANISMO TAILANDÊS E ESTUDOS COMPARATIVOS
Gandour, J. A. (1976). A glance at shamanism in Southern Thailand. Journal of the Siam Society, 64(1), 56-73. https://thesiamsociety.org/wp-content/uploads/1976/03/JSS_064_1f_Gandour_ShamanismInSouthernThailand.pdf
Tacey, I. (2014). Batek transnational shamanism: Countering marginalization through weaving alliances with cosmic partners and global politicians. ResearchGate. https://www.researchgate.net/publication/263388596
Shaman: Journal of the International Society for Academic Research on Shamanism. (1993-presente). Molnár & Kelemen Oriental Publishers. ISSN 1216-7827. https://www.isars.org/shaman/
Candomblé e Religiões Afro-Brasileiras
Hartikainen, E. (2019). Candomblé and the academic’s tools: Religious expertise and the binds of recognition in Brazil. American Anthropologist, 121(2), 298-311. https://doi.org/10.1111/aman.13272
Sansi, R. (2016). Miracles, rituals, heritage: The invention of nature in Candomblé. The Journal of Latin American and Caribbean Anthropology, 21(1), 10-28. https://doi.org/10.1111/jlca.12153
Saraiva, C. (2021). Emotions and religion across the Atlantic: Senses and lusophone orixás. Etnográfica, 25(2), 465-492. https://doi.org/10.4000/etnografica.10440
Johnson, P. C. (2020). Candomblé: A religion for all senses. Material Religion: The Journal of Objects, Art and Belief, 16(3), 345-372. https://doi.org/10.1080/17432200.2020.1756652
Bahia, J. (2023). Afro-Brazilian religions and the prospects for a philosophy of religious practice. Religions, 14(2), 146. https://doi.org/10.3390/rel14020146
Estudos Antropológicos Comparativos
Matory, J. L. (2005). Black Atlantic Religion: Tradition, Transnationalism, and Matriarchy in the Afro-Brazilian Candomblé. Princeton University Press.
Rocha, C., & Vásquez, M. A. (Eds.). (2013). The Diaspora of Brazilian Religions. Brill Academic Publishers.
Periódicos Especializados
Cultural Anthropology. Society for Cultural Anthropology, American Anthropological Association. https://journal.culanth.org/
Journal of Anthropological Research. University of Chicago Press. https://www.journals.uchicago.edu/toc/jar/current
Religions. Special Issue: Explorations in the Practice and Theory of Shamanism. MDPI. https://www.mdpi.com/journal/religions/special_issues/shamanism
Recursos Institucionais
International Society for Academic Research on Shamanism (ISARS). https://www.isars.org/
John Templeton Foundation. (2022, April 7). What the world has to learn from the philosophy of Afro-Brazilian religions. https://www.templeton.org/news/what-the-world-has-to-learn-from-the-philosophy-of-afro-brazilian-religions








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