Entre muros e pontes: o (re)encontro com a Humanidade que habita em nós

Escrito por 🪄Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit

A (r)evolução começa dentro de nós e muitos já sabem disso — e resistem com toda força possível e impossível no dia a dia. Assistindo à série filipina Love at First Spike, mais precisamente no episódio 6, pude ver exemplos de lutas que nem todos conhecem ou preferem ignorar: daqueles que experimentam sua essência humana, independentemente do que possam enfrentar na sociedade ou até na própria família.

Cena em que Uno pede desculpas a D – Ep6 de Love at first spike (2025)

Ao assistir BLs e GLs, nos acostumamos a observar todas as letras da sigla LGBTQIAPN+, principalmente em conteúdos da Tailândia e Filipinas, onde o gênero feminino ou masculino se misturam em cores, em trejeitos que dançam entre eles e às vezes não. As cores do arco-íris que representam a comunidade colorem personalidades, vestimentas, corpos — e vemos muito a felicidade estampada, talvez mascarada, para lidar com o maremoto emocional interno.

Vamos expandir isso um pouco. Todos somos indivíduos que vivem em sociedade, com ou sem famílias, talvez com amigos leais e presentes ou apenas colegas de trabalho. Muitas pessoas passam a vida sozinhas — o que não é certo ou errado —, mas ter outras individualidades ao redor, formando grupos de apoio e laços afetivos, melhora nossa qualidade de vida. A neurociência comprova isso.

Por mais que a jornada de autoconhecimento seja interna, ela não precisa — e nem deveria — ser solitária. Somos seres sociais, com sistemas nervosos moldados para a conexão. A ciência confirma: ter pessoas acolhedoras à nossa volta, participar de grupos de apoio, sentir-se parte de uma rede faz diferença real na nossa saúde mental, emocional e até física.

Cena em que Lucien sai do time de vôlei e os amigos o acolhem – Ep6 de Love at first spike (2025)

Pesquisas mostram que o apoio social está diretamente associado à redução de sintomas depressivos, maior resiliência ao estresse, melhor função imunológica e até longevidade. Como afirma o psiquiatra e pesquisador George Vaillant, responsável pelo Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard — uma das mais longas pesquisas sobre saúde e felicidade:

“A chave da felicidade é o amor. Relacionamentos calorosos mantêm as pessoas felizes e saudáveis.”

E não se trata apenas de relações românticas. Amizades, vínculos familiares, comunidades — presenciais ou online — podem ser esse abraço que sustenta.

Além de algo científico, vamos focar nas emoções e na frase “a revolução é interna”. A evolução pode ser individual, mas acontece com apoio, suporte, com uma vila que nos ajude a crescer como seres humanos acolhedores de si mesmos e, naturalmente, do próximo. Quanto mais me conheço, mais consigo ser melhor com o outro, respeitar as diferenças e até amar os que estão à minha volta.

Você pode pensar — e pode até ser polêmico: “mas e quem comete crimes, desrespeita o espaço do outro sem dó nem piedade?” Sim, a essas pessoas cabe à justiça julgar e à espiritualidade equilibrar.

E quem passa por essas invasões, por traumas emocionais, físicos, mentais e até espirituais? Cabe a nós acolher, respeitar e buscar ajuda caso queiram. Meu ponto aqui é o respeito ao indivíduo e às suas particularidades. Podemos encontrar reflexos disso em notícias, filmes, séries, redes sociais. Mas nada nos dá o direito de desrespeitar o livre arbítrio do outro.

Assim como os personagens nesses trechos apenas desejam ser quem são, sem tantos desafios que nós impomos a eles. Me coloco nesse lugar porque só aprendi a respeitar as pessoas à minha volta e suas diferenças ao entender que somos almas em corpos diferentes, de cores variadas e com aprendizados individuais. Um conhecimento que adquiri recentemente é de que eu sou um e sou o todo — e esse todo não é só flores num jardim de primavera, céu azul e passarinhos cantando. Ele também abriga o mais podre da humanidade, um lugar sombrio que ninguém em sã consciência escolheria habitar. Me diz: num momento de raiva, você nunca quis descontar as frustrações em alguém? Ou culpar o outro por uma infelicidade sem tamanho?

E quando estamos felizes, será que desejamos que o outro também esteja? Conseguimos, de fato, ser felizes e amar incondicionalmente sabendo que muitos ainda sofrem?

“Mas Elisa, como posso ajudar nisso tudo? Parece muito difícil…”

Pode ser, sim. É um desafio dar um passo pra dentro de si e se observar. Mas é isso que o mundo tem pedido cada vez mais: autocuidado, autoconsciência, autoconhecimento. Independentemente do que cada um acredita, cuidar de si, colocar a máscara de oxigênio primeiro — como dizem nas instruções de voo — é o que nos permitirá continuar a evoluir. Mesmo que outros à nossa volta tentem destruir tudo, a sua, a minha essência ninguém poderá destruir.

Sinceramente, quando baixamos as barreiras para escutar o outro com presença, podemos nos emocionar com as histórias que cada um tem para contar… Confesso que tem pessoas dentro da minha própria família com quem ainda tenho muros ao redor. Pois ao escrever este texto em específico, foi um incômodo que me moveu a isso. Perfeição aqui foi só durante o tempo em que achava que cobravam isso de mim e passei a viver buscando o impossível. Só quando me digo: me amo mesmo sendo imperfeita, me amo mesmo quando eu erro – foi quando senti de verdade a minha própria energia.

Me emociona perceber que talvez leve tempo até eu realmente abrir meu coração e, sem barreira alguma, me ver construindo uma ponte que me leve até elas — sem o peso do passado ou de expectativas frustradas. Por isso, meus olhos marejam quando vejo pais e mães acolhendo seus filhos coloridos sem nem questionar. No fundo, é isso que todos desejam, independente da idade.

Também me emociono com histórias como a dos dez garotos do reality tailandês Boys Vibe The Project, especialmente na cena em que abrem o coração para contar como se sentem sendo parte da comunidade LGBTQIAPN+. Eles falam sobre como gostam de se vestir, sobre como o amor não tem gênero. É tocante. Se puder, assista o trecho a seguir e a parte 4 desse episódio. Você talvez sinta o mesmo que eu.

A fortaleza de se descobrir e de se permitir experimentar quem se é pode ser o ouro ao fim do arco-íris. Ou seja: aceitar que somos imperfeitos, que só queremos ser felizes e respeitados. Mas claro, isso só pode acontecer num mundo onde todos tenham a oportunidade de crescer de forma saudável, com cuidados — dos básicos aos emocionais — que todos merecem.

Pode parecer utopia. Um sonho. Mas só quem se permite sonhar — e fazer do sonho realidade — poderá dizer, quando tudo passar:
Eu fiz o meu melhor.


📚 Referências

Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., & Layton, J. B. (2010). Social relationships and mortality risk: A meta-analytic review. PLoS Medicine, 7(7), e1000316. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1000316

Vaillant, G. E. (2012). Triumphs of Experience: The Men of the Harvard Grant Study. Harvard University Press.

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