O que a ciência tem a ver com BL?

Meu primeiro BL, sua primeira decepção e o começo de uma investigação.

Escrito por Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit

Você sabia que tem um artigo científico sobre a percepção de fandoms brasileiros sobre os BLs tailandeses?! E que os resultados indicam uma visão negativa da indústria tailandesa entre os fãs?!

Mas calma, antes de tornar tudo isso uma verdade absoluta, que tal investigar essa história junto comigo e descobrir o que uma publicação científica mostra muito como observamos e sentimos em relação aos ships, às séries e até a indústria BL tailandesa?!

Eu comecei a assistir BLs não tem muito tempo, bem quando terminava um doutorado e refletia sobre o que fazer da minha vida (aos 40 anos!)… Você pode ler e me julgar “eu tô fazendo isso aos 18”, ou “aos 25” ou ainda “aos 30 anos”… Spoiler alert: enquanto estivermos vivos, nos questionamos sobre o que fazer da vida. 😛 Enfim, após consumir muitos doramas coreanos, e até ter um podcast pra falar de tantas emoções que foram despertadas com uma amiga, assisti um BL coreano: Cherry Blossoms After Winter (2022).

Google Images

Logo fui buscar por mais daquilo (confesso que me animei com a série e a dopamina foi muito liberada!), assisti uns 12 BLs até chegar em Moonlight Chicken (2023), passar por umas cenas de Between Us (2022). Primeira impressão de Between Us foi achar muito ‘rústica’, moto, tatuagens, jogando alguém no sofá (assim me lembro!) – e, depois que assisti os BounPrem serem mais fofos que o Paody em cena, mudei de ideia (última impressão até sair Revamp)!

“Mas Elisa, quero saber mais sobre o artigo e não da sua história com BLs. ขอโท๊ดดดดด~ tôti na~ 🥺💦(me desculpe)”… Pois eu te digo que provavelmente quem escreveu o artigo, também tem seu primeiro BL assistido, o que achou e sentiu, primeiras impressões… Vamos lá!

Geralmente, pesquisas científicas são mais conhecidas por serem feitas em universidades, nos laboratórios, como se pode pensar em ratinhos, camundongos nas experiências para descobertas de vacinas, etc., como exemplo. Mas as investigações, pesquisas ocorrem em todas as ciências, ou seja, tudo aquilo que estudamos do fundamental ao médio (matemática, geografia, biologia, física, português,…), pode ter fenômenos que geram um maior interesse. E você acha que o cientista é alguém que faz a pesquisa por que gosta do assunto ou porque foi obrigado?! Possivelmente, pela primeira opção. A ciência, por mais objetiva que pareça, surgiu de percepções humanas, subjetivas.

Os BounPrem de universitários em Between Us (2022)

Então, o Anderson e o Nungchatai na Universidade de Chulalongkorn lá na Tailândia, mais a Ligia na Universidade de São Paulo, resolveram desenvolver uma pesquisa com o título “Percepções dos Fandoms Brasileiros sobre a indústria de BLs Tailandeses e as Práticas de Fanservice e Shipping: Análise de Conteúdo de Comentário Online numa Plataforma de Fansubs” (Silva, Rangponsumrit & Lemos, 2025). Muita informação?! Só peço um pouquinho de paciência pra explicar algumas coisas e como essa pesquisa é muito legal!

Primeiro, eles desenvolveram uma pesquisa qualitativa, muito utilizada pra gente entender os significados, percepções, emoções e processos cheios de símbolos. Em um exemplo, quando quero me aprofundar nas interpretações de como as pessoas se sentem e não somente na quantidade de pessoas que responderam um questionário de como se sentiam.

Para Minayo (2001), “a pesquisa qualitativa trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos”. E este tipo de análise é ótimo para estudar a recepção de mídia e cultura, pesquisa com comunidades online e fandoms, investigar linguagem, discurso e afetos.

Então, os 3 pesquisadores escolheram de que maneira fariam isso, pois não basta você ter milhares de depoimentos, comentários e não saber analisar tudo aquilo. Muitas vezes, opiniões se repetem, ou não são tão profundas, e isso depende muito do que o pesquisador quer estudar! Eles escolheram então utilizar um modelo de Análise de Conteúdo de Krippendorff (2019), que divide os dados (no caso, os comentários da Fansub) em índices e sintomas. O autor do método diz que índices são expressões que guardam, geram uma relação que provoca algo naquilo que ela indica, como sintomas, pistas, rastros deixados por um fenômeno. 

Vou explicar: na pesquisa, os comentários das pessoas eram os índices e eles revelaram como as pessoas se sentiam, o que pensavam (sintomas) sobre a indústria BL tailandesa. Uma relação de causa (causal, o porque daquilo acontecer) com o que foi indicado pelas pessoas em seus comentários. São rastros, sintomas, pistas deixadas por um fenômeno. Isto levou os autores a nomearem a categoria Indústria (de BL tailandesa) e as subcategorias Fanservice e Shipping. Dessa maneira, chegaram ao objetivo deles de investigar como fãs brasileiros, principalmente da fansub verdinha, percebem a indústria tailandesa de séries BL, a partir de 423 comentários online selecionados de 3888 feitos enquanto assistiam a série War of Y (2022), que mostra os bastidores da própria indústria. Ufa!

Pôster de War of Y (2022), objeto de estudo de Silva, Rangponsumrit & Lemos (2025)

“Elisa, já li muito! Quando acaba?!” 😆 Estamos lá! 

Você já deve ter percebido que, ao assistir uma série, podem trazer sentimentos, emoções confusas, e que pode revelar a realidade das coisas, dependendo da história?! Foi mais ou menos isso que muitos fãs sentiram ao assistir War of Y — uma série que expõe os bastidores da indústria BL tailandesa. Quando eles analisaram os 423 comentários da verdinha, perceberam que o termo “indústria” aparecia mais de 100 vezes, muitas delas com palavras como “podre”, “cruel”, “Chernobyl” (Silva, Rangponsumrit & Lemos, 2025).

Os fãs não reagiram apenas à série, mas processaram algo maior: a percepção de que o que se vê na tela é cuidadosamente coreografado para gerar engajamento — às custas da saúde emocional de atores e do próprio público. O fanservice, por exemplo, foi citado como uma estratégia que cansa, forçada, e que muitos reconhecem como violenta — embora também confessem que ajudam a alimentá-la.

E o Shipping?! Ele funciona como o coração e a ferida aberta dos fãs – um lugar de esperança e ilusão, mas também de pressão, possessividade e ataques a quem “quebra a fantasia”. Já reparou o quanto ficamos mexidos quando nosso ship preferido se separa?! O mais curioso é que esse fandom brasileiro não é passivo — ele questiona, sofre, ironiza, criam metáforas (como chamar a indústria de “Chernobyl”) e, no fim das contas, se reconhece parte desse sistema que ama, mas que sabe que precisa mudar.

Finalmente, depois de um texto tamanho artigo científico (tem uns de 4 páginas e tem outros de 40… Talvez esse foi até curtinho?! 🤭) – deixo algumas reflexões pro nosso bate-papo continuar: você se sente representado por essas pessoas que participaram da pesquisa?! Será que as séries tailandesas, que hoje incluem muitos BLs e o aumento dos GLs, só trazem percepções negativas?! E como esse tipo de conteúdo mexe com o seu emocional?!

Conseguiu sentir a vibração da “Cultura é Comportamento” dessa semana?! Se você achou isso tão interessante que lembrou de alguém, compartilha! E comenta quais suas reflexões por aqui, em nossas redes @maisthaiorbit no IG e no X ou na minha @integraaalma! 🙂 Até a próxima… 


Referências  

Krippendorff, K. (2019). Content analysis: An introduction to its methodology (4th ed.). Thousand Oaks, CA: SAGE Publications.

Minayo, M. C. de S. (2001). Pesquisa social: teoria, método e criatividade (18ª ed.). Petrópolis, RJ: Vozes.

Silva, A. L. da, Rangponsumrit, N., & Lemos, L. P. (2025). Brazilian fandom’s perceptions of the Thai Boys Love series industry and the practices of fanservice and shipping: Content analysis of online comments on a fansubbing platform. International Journal of Communication, 19, 1655–1674.

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