Além da bandeira: o peso invisível que muita gente ainda carrega

Mês do orgulho e a importância de se aprofundar em saúde mental e emocional

Por Dra. Elisa Maria para +Thai Orbit

Chegamos a Junho, conhecido como #MêsdoOrgulho #PrideMonth, mas muitas pessoas ainda não conseguem se orgulhar de ser quem são ou ainda não entenderam quem se é… Só entenderam e sentiram que o mundo pode ser cruel com elas numa sociedade majoritariamente religiosa, mesmo que laica, com princípios lindos de aceitação e amor ao próximo na fala, mas nem sempre na conduta.

“Elisa, você já chegou empurrando esta porta com os pés…” 😅

Sim, sinto muito se isso te trouxe gatilhos ou um choque já no primeiro parágrafo 🥹, mas muitas vezes precisamos de um chacoalhão pra nos aterrar… Pois mesmo que a Tailândia nos inspire a espiar, observar e sentir com todas as suas produções BL, GL e seus artistas lindos e viciantes, aqui no Brasil tem muitos espectadores que pertencem à comunidade e estão sofrendo! O alívio e acolhimento que podem sentir assistindo às séries e aos vídeos curtos que muitos até criam, esconde ansiedade, tristeza que não passa, não se sentir pertencente à própria família…

Em artigo publicado na Global Citizen, uma médica brasileira aponta que pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam dificuldades históricas para acessar cuidados em saúde mental — o que só piorou nos últimos anos (Rosa, 2021). E os dados confirmam isso: 85% relataram ansiedade e o risco de suicídio é muito mais alto, como mostra um estudo recente (Menezes et al., 2023). Além disso, sofrem discriminação estrutural, exclusão familiar e invisibilidade, que afetam diretamente o bem-estar emocional.

85% relataram ansiedade e o risco de su1cíd1o é muito mais alto (Menezes et al., 2023).

Fazendo um paralelo com o fenômeno transnacional do BL tailandês, que surgiu em 2014 com apoio grande de mulheres jovens e homens gays e bissexuais que, mesmo sendo parte do fandom, foram responsáveis por levantar críticas sobre a falta de politização do gênero. Por outro lado, o shipping (prática de formar casais reais ou ficcionais), que é um elemento essencial da indústria BL tailandesa, se tornou um elemento de visibilidade e engajamento afetivo com questões da comunidade LGBTQIAPN+ (Baudinette, 2023).

Ships como os EarthMix e ZeeNunew usaram de suas imagens públicas para apoiar abertamente causas LGBTQ+ na Tailândia — inclusive a luta por igualdade no casamento (Baudinette, 2023). E que hoje podemos comemorar esse engajamento de alguns anos atrás pois, em 18 de junho de 2024, foi aprovada a Lei de Casamento Igualitário na Tailândia, e que entrou em vigor em 23 de janeiro de 2025!

Fonte: IG

Mesmo que no Brasil o casamento entre pessoas do mesmo sexo tenha sido legalizado em 2013 (Conselho Nacional de Justiça – Resolução nº 175) e tenhamos a maior Parada LGBTQIAPN+ do planeta, muitas pessoas da comunidade se sentem sem espaço seguro para elaborar suas emoções. A falta de acesso à saúde mental e os altos índices de sofrimento indicam a urgência de espaços de acolhimento, representação e conexão — como os que a cultura BL pode proporcionar de forma simbólica.

Na ausência de muitas produções voltadas ao público nacional (com exceções, claro, como o filme O Silêncio da Singularidade, lançado com apoio da Lei Paulo Gustavo, entre outras produções), a identificação com personagens e narrativas BL de países asiáticos — e, cada vez mais, da Tailândia — cria ressonâncias afetivas. Tudo isto, mesmo que não substitua políticas públicas, produz impactos emocionais positivos em muitas pessoas, dentro e fora da comunidade.

Filme “O Silêncio da Singularidade” com direção de Julio Alves

🌱 E é por isso que estou aqui. Não é o sofrimento que me trouxe até essa coluna. É a certeza de que a gente precisa de mais pontes entre o que toca o coração e o que pode mudar realidades. A cultura pop também é política. O afeto também é resistência. E o que nos emociona pode — e deve — nos transformar.

E aí, gostou desse primeiro texto da coluna “Cultura é Comportamento”?! Comenta o que achou, compartilha com a pessoa que você lembrou ao ler o texto e nos vemos todo sábado aqui na +Thai Orbit! Nos acompanhe para conteúdos que orbitam a Tailândia em @maisthaiorbit e me acompanhe em @integraaalma para conteúdos sobre comportamento integrativo! 💖


📚 Referências  

Baudinette, T. (2023). Boys Love media in Thailand: Celebrity, fanship and sexual citizenship. Bloomsbury Academic.

Conselho Nacional de Justiça. (2013). Resolução nº 175, de 14 de maio de 2013. Dispõe sobre a habilitação, celebração de casamento civil, ou de conversão de união estável em casamento, entre pessoas de mesmo sexo. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/busca-atos-adm/?id=2573

Menezes, L. P. de, Bedone, M. C. C., Oliveira, L. C. de, & Rossi, A. (2023). Mental health assessment of the Brazilian LGBTQIAP+ population during the COVID-19 pandemic: A cross-sectional study. Revista Brasileira de Psiquiatria, 45(2), 119–126. https://doi.org/10.47626/1516-4446-2021-2041

Rodrigues, A., & Pasian, S. R. (2021). Brazilian LGBTQIA+ population and health care: Demands and responses in the pandemic. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 55, e03673. https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Z9fHvfC9ZdDXD8LZVypTb4H/?lang=en

Rosa, D. C. da. (2021, June 25). In my own words: “LGBTQ+ people in Brazil have faced an emergency in health care access for decades.” Global Citizen. https://www.globalcitizen.org/en/content/in-my-own-words-doctor-brazil-lgbtq-health-care/

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