Temos que começar abordando a grande diferença entre não gostar de uma produção e ela ser, de fato, ruim.
Por exemplo, eu não gosto de Star Wars por gosto pessoal, mas sei que, em termos técnicos, não é uma produção ruim. Você pode não gostar de ‘Play Boyy’, mas isso não quer dizer que não há qualidade na série, apenas que não é o seu tipo de BL.
Uma das alegações populares utilizadas para criticar a obra é que a temática dela é apenas sobre sexo — eu acho bastante problemático a ideia de “castrar” personagens gays e retratá-los de forma puritana, assim como também representar as relações homoafetivas apenas como desejo sexual —, mas o fato é que ‘Play Boyy’ não aborda apenas sexo, a não ser que você queira.

Em uma análise um pouco mais aprofundada, nota-se que esse BL é sobre uma juventude niilista que se relaciona de forma imediatista com o mundo e com o prazer, e os extremos que esse comportamento sem responsabilidades pode levar.
A relação dos personagens com o sexo e o uso de drogas parece uma válvula de escape para questões muito particulares dos personagens: seja carência, problemas familiares ou questões existenciais.
Em contraponto a todos os outros personagens que procuram prazer imediato, temos um personagem com problemas em ser tocado fisicamente, e que, por ironia da vida, se apaixona por um garoto de programa.
Para mim, ele serve de contraste comportamental para os demais personagens, o que torna ainda mais evidente a conduta exacerbada dos outros. Nesse BL, o sexo é uma grande questão, retratando os que trabalham com ele para sobreviver e os que o buscam com essas pessoas.

Outra questão que ressalto é a forma “crua” que o desejo e os atos sexuais são expostos, sem a necessidade de fantasiar o ato para ser digerido com facilidade.
Esse BL vai na contramão de outras produções que optaram por romantizar e tornar a relação sexual mais lúdica, e para ser bem sincero, essa obra foi a que mais se aproximou do real fetichismo dentro da comunidade Gay, sem chicotadinhas de leve e algemas de pelúcia, essa série expõe algo mais punk ao adentrar no submundo sexual fetichista gay, e sobre isso ela não deixou nada a desejar.
Talvez, por eu ter consumido muito audiovisual underground, ‘Play Boyy’ não me assustou, pelo contrário, me fez adorar o universo da série. Acredito que o problema é que o público de séries BL não está receptivo ao experimental, o que infelizmente faz com que produções como essa acabem não furando a bolha.
Recentemente tivemos um filme que deixou a internet em polvorosa: ‘Saltburn’, dirigido por Emerald Fennell. As propostas são similares, mas a situação de produção é diferente, inclusive quando falamos de orçamento, claro.
Olhando a temática sugerida por ambas as obras, se ‘Play Boyy’ tivesse metade do orçamento de ‘Saltburn’, provavelmente estaria sendo ovacionado pelos fãs de BL.

Como fã do gênero e consumidor assíduo de audiovisual, desejo que o gênero BL cresça e crie ramificações para além do que as pessoas esperam dele, e nesse caminho, algumas produções com premissas maravilhosas vão falhar, porém, já fico feliz pela tentativa de fazer algo diferente.
Eu gosto de BL fofinho, mas também amo os que não atendem às expectativas do formato convencional de romance.
Escrito por Nilton Vieira








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