Você já pensou como seria o processo de descoberta das relações afetivas de pessoas LGBTs sem influências externas que reprimam essa sexualidade?
Para quem é LGBT infelizmente é algo quase inimaginável. O processo de descoberta e exploração desse sentimento sempre vem muito carregado de culpa, medo e vergonha.
Essa questão é representada em alguns BLs de forma muito sensível, como em ‘My Only 12%’, que conta a história de Seeiw e Cake, dois amigos que crescem juntos desenvolvendo uma intimidade muito profunda, e que ao chegarem à adolescência começam a descobrir que esse sentimento se estendeu para além de uma amizade.
Em uma das cenas do BL, Seeiw é convidado pela irmã para ver o filme BL tailandês ‘The Love Of Siam’ (2007), que também retrata a descoberta da sexualidade e o desenvolvimento de uma relação homoafetiva entre dois amigos.
Seeiw fica impactado ao ver uma cena específica em que os protagonistas do filme, Tong e Mew, se beijam. O personagem claramente toma consciência de si próprio e do seu sentimento por Cake, que ainda não percebeu que sente o mesmo.
No episódio seguinte, Eeiw assiste sozinho ao filme, dessa vez a cena o impacta mais ainda, na cena a mãe de Tong conversa com Mew e fala sobre todas as expectativas de uma vida heteronormativa que tem para o filho, e deixa claro o quão errada ela acha que essa relação homoafetiva seria.

Essas cenas são muito significativas para o personagem, pois Eeiw, que até então não tinha vivenciado nenhum tipo de repressão a sua sexualidade, pode experimentar um pouco do que as pessoas como ele sofrem quando ousam viver sua verdade.
Aqui nós podemos ver um ponto de rompimento brusco de uma realidade simples, onde ele apenas gostava do amigo, para uma realidade mais complexa e desafiadora, onde o que ele é parece ser errado e condenável.
Do outro lado Cake tenta se relacionar com uma garota cis, mas não parece haver um sentimento genuíno que o impulsiona a desenvolver essa relação.
Aqui mais uma vez a cena de ‘Love of Siam’ ecoa sobre os personagens de ‘My Only 12%’, a idealização social de relações heteronormativas parece levar Cake para um lugar de apatia, em que ele só segue o que parece ser o normal para garotos da sua idade.
Isso se confirma quando observamos a facilidade que Cake tem de romper a relação que tem com a garota, claro que temos outros fatores a serem considerados, mas esse é o principal.

Outro BL que aborda esse tema é ‘The Miracle of Teddy Bear’ (2022), onde Taohu, um urso de pelúcia, se transforma em humano para ajudar seu dono Nut.
Taohu, como um não-humano, expressa um sentimento muito puro, e quando uso a palavra puro me refiro a um sentimento sem a influência da lâmina social humana.
Há um contraste evidente na forma como os personagens lidam com o sentimento que se desenvolve, Taohu é muito fiel ao que sente, enquanto Nut foge em alguns momentos e nega em outros.
Nut, que teve um pai tirano e homofóbico tem uma dificuldade muito grande de lidar com esse sentimento e se entregar a uma relação com Taohu. Aqui vemos em Nut a realidade de pessoas LGBTs que passam por muitos processos traumáticos durante a sua descoberta, e em Taohu vemos esse ideal simbólico da descoberta de um sentimento e de uma sexualidade pura, caso vivêssemos em um mundo que normaliza esse tipo de relação.

Em ‘Cutie Pie’ (2022), Kuea e Lian vivem uma situação bem diferente das outras duas tramas, deixando de lado o fato que os dois vivem um casamento arranjado por suas famílias, ambos vivem uma história onde a trama não gira em torno do fato de terem uma relação homoafetiva.
É interessante ver um BL onde os personagens vivem outros tipos de desafios, e onde ambos são muito seguros da sua sexualidade desde o começo, quebrando o plot da descoberta conturbada da sexualidade.

O ideal é que a descoberta da identidade sexual de pessoas LGBTs fosse um processo de autodescoberta prazeroso e cheio de acolhimento, essa fase reflete inclusive no desenvolvimento de autoconfiança e autoaceitação, mas infelizmente para pessoas divergentes do sistema heteronormativo, esse processo acaba sendo doloroso e traumático.
Um mundo onde pessoas LGBTs possam viver suas identidades de uma forma normalizada, onde os processos de descoberta não girem em torno do medo e da culpa, não deveria ser um mundo idealizado e sim um mundo minimamente saudável para todos.
Escrito por Nilton Vieira








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