Existe um subtexto que muitas vezes passa despercebidos em alguns BLs, que é a importância da comunidade na jornada de autoaceitação e autoafirmação dos protagonistas LGBTs, ressaltando aqui que quando estou falando de comunidade, me refiro a pessoas LGBTs que se apoiam, ou lugares para se sentir acolhido, para socializar com seus iguais e dividir as dores e alegrias de ser quem se é.
A importância da convivência em comunidade fica muito óbvia, por exemplo, em ‘Secret Crush On You’, BL que tem no grupo de protagonistas dois homens gays e uma mulher trans. Nesse BL, é visível a importância de ter amigos que entendem o que passamos para dividir inclusive as experiências românticas, experiências as quais muitas pessoas LGBTs são privadas de viver desde cedo, ou que vivenciam em segredo.
No BL, Toh, Khaojao e Daisy, um grupo de amigos LGBTs, passam por alegrias e dificuldades juntos, se apoiando e sentindo as alegrias e as dores uns dos outros, cada um com seus recortes e suas individualidades. Assim, os personagens são desenvolvidos, experimentando seus próprios romances e aventuras.
Nesse sentido, existe também um recorte muito importante para a personagem Daisy, que passa por um conflito interno relacionado ao seu gênero e a aceitação de sua identidade, mas que com o suporte dos amigos, consegue se autoafirmar.
Esse senso de comunidade e pertencimento é tão poderoso ao ponto de dar força aos personagens para assumir quem são, e enfrentar os julgamentos de toda uma sociedade. Se reconhecer entre os seus iguais e ver que não se luta sozinho, é uma experiência muito importante para grupos identitários.
Em uma cena muito simbólica de ‘Be My Favorite’, Pisaeng, que está em processo de autoaceitação, vê dois homens se beijando em uma festa, e logo em seguida encontra um bar com uma bandeira LGBT na porta. Ele para pra observar ainda com um certo desconforto, pois está em conflito interno sobre sua sexualidade.
Após isso, ele consegue contar para Kawi, seu amor platônico. Podem parecer cenas muito simples, mas são muito simbólicas para o personagem, que está em um processo onde referências e pertencimento são fatores muito importantes. Após se declarar para Kawi, Pisaeng retorna ao bar, agora mais confortável, sentindo-se parte do ambiente: ele bebe e interage com as pessoas.
O mesmo acontece com Akk, ao adentrar pela primeira vez em uma cafeteria LGBT em ‘The Eclipse’, ou com Jom em I Feel Linger In The Air, ao experienciar o bar secreto dos outsiders, ainda na primeira metade do século XX, onde era tudo ainda mais difícil, e ao ouvir as falas de James sobre aquele ser um lugar seguro para pessoas como eles.
Em todos esses BLs, fica explícita a importância desses lugares comuns, onde a comunidade busca força e poder coletivo para enfrentar uma existência individual.
Lugares onde buscamos refúgio e amparo, afeto e alegria, força e empoderamento. Lugares onde podemos viver a loucura de ser quem somos sem julgamentos, onde podemos dividir um pouco dessa jornada, muitas vezes solitária, de auto descoberta e afirmação.
Que nós da comunidade LGBTQIAP+ continuemos construindo nossos lugares comuns, que podem ser físicos ou não, onde possamos compartilhar afetos, diversão, referências, acolhimento e experiências. Que assim como em Stonewall Inn, possamos buscar forças para nós mesmos entre os nossos.
Escrito por Nilton Vieira








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