‘I Feel Your Linger in the Air’, um BL histórico em todos os sentidos

I Feel You Linger in the Air’ (IFYLITA) é uma série BL baseada na novel da autora Violet Rain e produzida pela YYDS Entertainment em parceria com a Dee Hup House.

A série foi ao ar entre 18 de agosto de 2023 e 03 de novembro de 2023, contando com 12 episódios, e tanto sua versão sem cortes (cerca de 1h por episódio) quanto sua versão para TV (cerca de 45min) podem ser assistidas gratuitamente com legendas em inglês no canal de YouTube da YYDS.

A série protagonizada por Nonkul Chanon (Jom) e Bright Rapheephong (Yai) conta a história de Jom, um arquiteto que se torna responsável pela restauração de um casarão histórico na província de Chiang Mai, e Yai, um jovem de 20 anos filho de uma família influente na Chiang Mai dos anos 20.

Em síntese, após começar a trabalhar no casarão histórico, coisas estranhas começam a acontecer com Jom, ele ouve vozes, encontra desenhos peculiarmente familiares e tem visões do passado daquela casa e da pessoa que morava lá, Khun Yai. No entanto, pouco tempo após assumir esse trabalho, Jom sofre um acidente de carro e cai no Rio Ping, onde é transportado no tempo para a era de Yai. Sem entender o que está acontecendo e o porquê de tantas pessoas ali lhe serem familiares, apesar de terem nomes diferentes e afirmarem que nunca o viram antes, Jom precisa se adaptar rapidamente à sua nova vida no passado enquanto tenta descobrir o que o levou até lá.

‘I Feel You Linger in the Air’ traz um enredo carregado de contexto histórico e cultural; além de romance, fantasia e realismo. Conta uma história sobre viagem no tempo e vidas passadas com uma abordagem muito diferente do que já vimos antes, além de ter uma fotografia impecável e uma trama que faz com que o espectador se envolva tão profundamente que é impossível não torcer para que o amor de Jom e Yai seja capaz de atravessar as barreiras do tempo.

Uma narrativa densa, sóbria e madura contada de forma poética

A história de amor entre Jom e Yai, a princípio, se desenvolve de maneira lenta. Para quem, como eu, está acostumado com narrativas mais aceleradas e, por vezes, um tanto quanto previsíveis, o ritmo inicial de ‘I Feel You Linger in the Air’ pode causar uma certa estranheza, pois ele pede que o espectador recalibre seu cérebro para acompanhar um romance slowburn mais maduro, carregado de poesia e que nos presenteia com diversas informações sobre o contexto histórico da época e local em que se passa. 

Ainda sobre o ritmo da história, um fator interessante, mesmo que sutil, é que enquanto temos Jom no presente, o ritmo parece seguir o mesmo que estamos acostumados em outras produções, com muitas coisas acontecendo em sequência e sem grandes momentos de silêncio ou contemplação; isso muda quando Jom viaja ao passado, pois, apesar de sempre ter algo acontecendo na história e de não haver enrolação, o ritmo em que as coisas acontecem diminui; talvez para mostrar como as coisas aconteciam, de fato, de forma mais lenta no passado em comparação ao frenesi do presente.

Tratando agora da história em si, pode parecer estranho afirmar que uma série que envolve viagem no tempo é bastante realista, mas é exatamente isso que ela é, apesar de todos os elementos fantasiosos.

IFYLITA se propõe a apresentar, e até mesmo a explicar ao público diversos elementos culturais tailandeses que nos ajudam, muitas vezes, a entender comportamentos apresentados em vários outros BLs.

Por exemplo: Quem nunca viu um BL de faculdade em que os veteranos passam uma cordinha branca no pulso dos calouros enquanto lhes desejam coisas boas e depois amarram essa cordinha como pulseira? Só enquanto eu escrevia essa frase, pelo menos 3 cenas de BLs diferentes me passaram pela cabeça. Então, IFYLITA nos explica (mais de uma vez) de onde vem esse costume e o que ele significa.

Mas o realismo vai muito além dos aspectos culturais. Apesar de bastante romântica, essa série não romantiza a vida de pessoas queer, de mulheres e de pessoas pobres na Tailândia dos anos 20, mostrando várias ocasiões em que tais pessoas eram vistas e tratadas como inferiores, sofriam com injustiças, eram violentadas e tinham suas vidas tomadas e controladas por outras (em geral homens) com mais poder que elas.

Muitos desses acontecimentos, apesar de se passarem nos anos 20, ainda hoje são muito familiares para pessoas pertencentes às minorias (políticas, não quantitativas) citadas acima: lidar com pais conservadores, uma sociedade LGBTfóbica, discriminação de classe, abuso de poder, entre outras coisas… Infelizmente, nada disso é algo do passado em grande parte do mundo (se não no mundo todo).

Ao retratar tais cenas acontecendo no início do século passado, a série nos provoca a refletir sobre quão antiquados são muitos dos comportamentos e crenças que são reproduzidos até hoje, mesmo que com uma nova roupagem. Incluir tais situações – por vezes brutais – numa narrativa tão poética quanto ‘I Feel You Linger in the Air’ sem que elas pareçam deslocadas ou até “militantes demais” (para os olhos mais conservadores) não parece ser uma tarefa fácil, mas foi cumprida com êxito pela produção. São, inclusive, esses momentos de tensão social que contrabalanceiam os momentos mais doces de romance entre os personagens, criando um bom equilíbrio narrativo e fazendo com que a série não pareça melosa demais.

Além disso, a fotografia, cenografia e figurino, o desenvolvimento dos personagens e, principalmente, a ótima interpretação de todo o elenco, nos transportam diretamente para aquele período da história. Com episódios de 1 hora – que você mal vê passar -, a série te cativa tanto, que é impossível tirar os olhos dela, pois toda cena parece importante, e não há um diálogo que não tenha algum significado relevante para a história.

Dos principais aos coadjuvantes: Personagens marcantes que levaremos para a vida

Uma boa história não se faz sem personagens interessantes e bem desenvolvidos. Por melhor que seja o enredo da história, se o espectador, ouvinte ou leitor não conseguir se conectar com os personagens por uma questão de falha na construção destes, ele dificilmente terá interesse em continuar consumindo a obra até o fim.

Fazer com que o público se importe com os personagens, seja por identificação, empatia ou simpatia é uma parte crucial para o sucesso de uma história. E em I Feel You Linger in the Air, isso não é um problema, pois é visível o esforço colocado no desenvolvimento de cada personagem da trama e é impossível não se conectar com eles

Protagonistas

É claro que já é esperado que, em qualquer que seja a produção, os protagonistas sejam bem desenvolvidos. E nessa, Jom e Yai não decepcionam. Eles não são apenas dois homens gays de épocas diferentes que se apaixonam e vivem felizes para sempre. Eles têm motivações, sonhos, traumas, questões familiares, gostos, hábitos e relacionamentos anteriores ao seu encontro…

E nada disso fica no âmbito do subjetivo para o espectador. Pelo contrário, é tudo muito bem mostrado ou conversado entre eles. Ambos são personagens cheios de nuances e camadas e é isso que os torna tão cativantes e reais. Jom, por exemplo, pode parecer mais quieto e tímido durante toda a história, mas quando necessário, ele está pronto para se impor.

Tudo isso faz com que nos conectemos e tenhamos empatia pelos personagens. Uma pessoa que já foi trocada por outra, provavelmente conseguirá se conectar com Jom e entender profundamente seu impasse com relação a ajudar Fong Kaew e Khamsaen quando os encontra no passado; já alguém com pais controladores e/ou conservadores facilmente se identificará com Yai.

É também essa identificação e o laço afetivo que o público desenvolve com os personagens no decorrer da trama que faz com que o final dessa história seja tão emocionante.

Personagens femininas

Muitos são os BLs com personagens femininas que parecem estar ali apenas para cumprir uma cota de gênero. Colocam mulheres na história, mas elas não têm passado ou futuro, não têm motivação ou desenvolvimento… Apenas estão ali para parecer que o universo da série não é composto apenas por homens. 

Isso faz com que tais séries sejam ruins? Absolutamente não. Mas trazer personagens femininas bem construídas e com desenvolvimento adiciona muito à narrativa e ao realismo da série e, na minha opinião, esse é um dos diferenciais desse BL, pois, nesse aspecto, IFYLITA dá uma aula para todos os outros, principalmente para aqueles que querem incluir casais sáficos na história de forma significativa (o que é sempre bem-vindo).

Se pensarmos nas 3 personagens femininas mais importantes – Ueang Phueng, Maey e Fong Kaew -, podemos ver que cada uma delas tem uma história distinta que a série faz questão de contar e isso faz com que o público entenda suas escolhas e comportamentos no presente e, acima de tudo, se importe com cada uma delas. Isso porque as 3 são personagens importantes para a narrativa: elas têm motivo de existirem e estarem lá. 

O desenvolvimento de Fong Kaew, particularmente, me surpreendeu, pois no começo, a personagem foi apresentada como uma aparente intrusa; primeiro na vida de Jom no presente e depois na vida de Ueang Phueng no passado.

A trama inicial te leva a crer que essa personagem será usada para que haja a velha história da rivalidade feminina por conta de um homem e que ela poderia até mesmo vir a ser uma das antagonistas. No entanto, não é isso que acontece. Fong Kaew não apenas tem sua história contada, ela tem desenvolvimento de sua personalidade, o que nos leva, rapidamente, a torcer por ela, que vem a ser uma personagem-chave do meio para o final da história.

Além disso, IFYLITA nos dá finais claros para essas personagens, que, após sofrerem diversos abusos e opressões, tomam as rédeas de suas vidas e podem seguir o caminho que escolheram, algo talvez um pouco otimista demais para a época em que a trama se passa, mas que, no entanto, é bastante empoderador.

São raras as vezes que um BL explicita o final de uma personagem feminina. Este nos permite ver qual o final de várias delas (menção honrosa para a mãe de Ueang Phueng, Yai e Lek que, apesar de ter pouco destaque durante a história, acaba assumindo um papel de liderança na família, quando necessário).

Personagens queer

A série não conta apenas a história de amor entre Jom e Yai (casal gay) e entre Ueang Phueng e Maey (casal lésbico), ela traz também outros personagens LGBTQIAPN+, que enriquecem a narrativa. James, o fotógrafo, é um deles.

Numa trama comum, nós provavelmente só saberíamos que ele é gay porque ele dá em cima de Jom e ficaria por isso mesmo, mas não nesta, que nos apresenta um pouco do passado desse personagem e sua história de perda de um amor, além de torná-lo parte importante da “libertação” de outros personagens da comunidade.

A outra figura queer coadjuvante que merece destaque é Nuey, uma kathoey (identidade de gênero tailandesa que pode ser encaixada no guarda-chuva da transgeneridade) que, apesar de aparecer pouco, tem grande importância representativa ao mostrar que pessoas de gêneros dissidentes aos que foram atribuídos no nascimento existem e resistem há muito tempo – ao contrário do que muitos argumentam hoje em dia. Nuey pode ter um papel pequeno no enredo, mas é representada de forma digna e não-estereotipada.

Além disso, ela tem seu passado triste contado, talvez para que o público entenda que aquela figura que dança alegremente, podendo ser ela mesma naquele escuro estabelecimento secreto, teve que superar diversos obstáculos para estar ali; e para que reflita sobre como isso ainda é real nos dias de hoje.

Serventes

Muitas pessoas trabalham para a família de Yai e é óbvio que não seria possível (ou necessário) desenvolver todos esses personagens. No entanto, ainda assim, Prik e Ming (além de Maey) recebem atenção, e o espectador acaba desenvolvendo um certo apego por eles também. É impossível não se revoltar quando Prik é punida por ir visitar sua mãe doente ou deixar de torcer para que Ming consiga parar de trabalhar ali e possa seguir sua vida em outro lugar como deseja.

Antagonistas

Quis, propositalmente, comentar sobre cada uma dessas “categorias” de personagens e como suas histórias são contadas independente do tamanho de seus papéis, exatamente para vermos o contraste delas com o desenvolvimento dos antagonistas.

Todos os personagens citados anteriormente são, de alguma forma, pertencentes a uma minoria: Yai é da elite, mas é queer; assim como Ueang Phueng que, além disso, é mulher. Ming (e até mesmo Khamsaen que não citei, mas também se encaixa aqui) é um homem cis e hétero, mas é pobre…

Já quando pensamos nos antagonistas, percebemos que todos eles são homens cis-hétero da elite da época. Eles são construídos bem o suficiente para que nos façam sentir raiva por serem arrogantes, controladores, homofóbicos, abusadores etc. Mas o que acho interessante é perceber que estes são os únicos personagens que não recebem um passado. 

E, é claro que eu posso estar analisando demais, mas, para mim, é como se a série dissesse, muito sutilmente, que as histórias de homens ricos, cis-hétero normativos (e, trazendo para nosso contexto eurocêntrico, brancos) já são incansavelmente contadas todos os dias, inúmeras vezes em incontáveis filmes, séries e livros. Mas não nessa. ESSA história é sobre as minorias e sobre como elas superam os obstáculos apesar de tudo. Tanto no passado quanto no presente.

Considerações Finais

Já faz um tempo que começamos a ver BLs com temas mais maduros sendo produzidos (‘Manner of Death’, ‘KinnPorsche’ e ‘Moonlight Chicken’ são bons exemplos disso); estamos deixando a era dos romances colegiais e de faculdade como única opção, e passando a ter um leque maior de temas e gêneros. Penso que IFYLITA veio para consolidar essa evolução da indústria, mostrando que um BL pode conquistar o público tendo uma narrativa sóbria e mantendo um alto padrão de qualidade.

Ainda veremos os reflexos de seu sucesso no futuro, mas imagino que a série possa ser mais uma que marcará uma virada na indústria por elevar o nível das produções.

Por fim, posso dizer que ‘I Feel You Linger in the Air’ foi uma grata surpresa que a Tailândia nos deu neste ano e deixará uma marca na memória de todos que assistiram.


Escrito por Kanon Tsuki

Compartilhe sua opinião!