GMMTV: o engajamento na indústria do entretenimento

O Diretor geral da GMMTV, Tha Sataporn, participou de uma entrevista para o Canal do YouTube tailandês THE SECRET SAUCE, onde falou sobre a sua visão de negócios da empresa e sobre um pouco do que acontece nos bastidores. A entrevista tem 50 minutos, e pode ser assistida na íntegra clicando aqui.

Um dos trechos mais comentados da entrevista é quando Tha fala sobre o modelo de negócios da GMMTV: eles procuram desenvolver artistas versáteis, com habilidades não apenas de atuação, mas também musicais. Além disso, o diretor comentou sobre os fatores em que se baseia para mensurar o sucesso das séries BL, as quais a empresa está cada vez mais focada em produzir, devido ao aumento exponencial de fãs.

Na percepção de Tha, esses fatores são, primordialmente, o número de visualizações da série em todas as plataformas, o número de tweets feitos por fãs, o aumento do número total de seguidores do elenco nas redes sociais e eventos presenciais como fanmeetings e shows lotados de fãs. Esta declaração, em específico, tornou-se bastante polêmica, com diversas postagens críticas de fãs nas redes sociais.

Ainda a consideramos a tendência um fator importante desta época. Quanto a essa capacidade de engajamento, é o que o leva a ter a oportunidade de realizar o próximo trabalho. É claro que algumas pessoas são extremamente talentosas, mas sua popularidade não é boa e não conseguimos prosperar com isso. Afinal, do ponto de vista empresarial, as vendas e a resposta são as coisas mais importantes”,afirmou o diretor geral da GMMTV em um dos trechos da entrevista.

Tha Sataporn ainda disse que “Na era em que vivemos, o engajamento total é muito importante (…) Hoje em dia, o emprego tem muito a ver com engajamento. É até considerado um fator-chave no emprego. Especialmente como um negócio de marca, as vendas e a resposta são importantes.

Dentre outras questões, os fãs alegam que a declaração de Sataporn desumaniza os artistas, tornando-os apenas produtos, e que a empresa está mais preocupada com números do que com a qualidade da obra em si. Entretanto, o diretor geral afirmou que a química entre os atores também é algo muito importante, e que por vezes, se sobressai à própria série, pois é algo natural e aprofundado; caso contrário, não se sustentaria a longo prazo.

A GMMTV é, antes de tudo, uma empresa. Dito isso, está inserida na lógica do sistema capitalista em que vivemos, visando, prioritariamente, o lucro. Algo que não obtém lucro não tem como se sustentar, então é compreensível a visão de Tha Sataporn, onde o engajamento e as visualizações são um termômetro para o sucesso de uma série.

Entretanto, isso não quer dizer que a empresa possa tratar seus artistas como produtos. Infelizmente, estamos acostumados a ver isso acontecendo em diversas esferas da indústria do entretenimento, principalmente no K-pop, mas não podemos chegar ao ponto de considerar algo “normal”. Diversos artistas da GMMTV sofrem ameaças, assédio, bullying e falsas acusações, e por muito tempo, a empresa ignorou boa parte dessas questões.

Felizmente, isso está começando a mudar, ainda que lentamente, pois a empresa está começando a se posicionar mais, emitindo notas e entrando judicialmente para proteger os artistas. A GMMTV pode estar fazendo isso simplesmente para não perder sua “mão de obra”, como aconteceu com Bright, um dos atores mais famosos da casa, que saiu e fundou sua própria empresa.

Outras questões podem ser levantadas, como: a GMMTV, e não só ela, mas todas as empresas que investem em produções BL, estão mesmo preocupadas com a comunidade LGBTQIA+? Por um lado, vemos BL cada vez mais politizados, escritos por diretores da própria comunidade, e trazendo questões reais da comunidade e uma representatividade que emociona os olhos de quem os assiste.

Mas por outro, quantos atores LGBTQIA+ assumidos nós conhecemos, de fato? Pouquíssimos, e isso não é coincidência. As empresas procuram por atores heterossexuais, e quando não o são, pedem para que isso seja escondido às sete chaves. Porque eles querem tratar de questões da comunidade nos BL’s, mas não querem lidar com o preconceito que seus artistas enfrentariam por fazer parte desta mesma comunidade. Contraditório, mas essa é uma das lógicas capitalistas. Em suma: já avançamos bastante nos últimos 10 anos, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

Sendo as motivações capitalistas ou humanistas, nenhuma empresa tem o direito de destratar seus funcionários ou fechar os olhos para as dificuldades deles. Isso acontece? Sim, e muito, infelizmente. Mas o nosso papel enquanto fãs, e principalmente enquanto consumidores, é de nos orquestrar para promover ações de combate a isso, como boicotes, até que medidas justas sejam aplicadas. Eles não podem lucrar se não possuem quem dê lucro.


Escrito por Marcos Felipe Martins

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